Análise – Bloodborne (PS4)

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O dia 24 de março se tornou um marco na história dos consoles da Sony. Trata-se da data de lançamento de Bloodborne, game aguardado pelos fãs da produtora From Software, a mesma que desenvolveu a série Souls (Demon’s, Dark I e II). O mais novo produto da empresa já era alvo de grandes expectativas, mas também circundado de dúvidas. No final, Bloodborne se mostrou ser um dos melhores jogos do gênero e o melhor da geração atual de consoles até o momento. Aos jogadores mais antigos é preciso lembrar: Bloodborne é um jogo com uma proposta um pouco diferente dos outros games produzidos pela From Software, mas tudo será explicado em seu devido tempo.

A história se passa na cidade de Yharnam, famosa em seu continente por ter sido o local de nascimento da chamada Igreja da Cura, que utiliza sangue como princípio ativo de seus tratamentos. Yharnam se tornou também um centro para viajantes que procuravam cura para as mais variadas doenças. Após a introdução descobre-se que a cidade foi assolada por uma doença desconhecida que causa licantropia e é transmitida pelo sangue. Resumindo, praticamente toda a população de Yharnam, incluindo seres humanos, animais e até mesmo alguns mortos, se transformaram em monstros e os poucos sobreviventes estão escondidos em suas casas culpando outros Caçadores, contratados pela Igreja para executar os monstros, pelo estado em que a cidade se encontra.

Com o desenrolar da história, encontramos outros Caçadores que foram afetados pelas praga e se transformaram em feras, ou que apenas abandonaram seus ideais e decidiram proteger as bestas ao invés de extermina-las. Cabe então ao protagonista achar a cura definitiva para a praga que assolou Yharnam e destruir aquilo que a originou. De forma geral, Bloodborne apresenta algumas semelhanças com a série Souls, como o estilo da história (forasteiro que chega a uma terra distânte e tenta salvar o lugar), ambientação, trilha sonora, dificuldade e até mesmo no que diz respeito ao combate, mas as diferenças de jogabilidade e inclusão/remoção de alguns elementos marcaram a identidade do jogo, não o transformando em apenas um legado dos títulos anteriores.

Yharnam é retratada como uma clássica cidade da Era Vitoriana: ruas largas com calçadas estreitas, edifícios construídos de forma adjacente com altas janelas e portas arqueadas. Nas igrejas o padrão segue: presença de grandes vitrais, sustentação de estruturas feita por arcos e colunas, iluminação com enormes lustres, enfim, tudo é retratado de forma bastante fiel ao período histórico, porém algumas construções foram destruídas em razão da praga. Os arredores da cidade são tomadas por florestas e pequenas vilas, caracterizadas por seus moradores com vestimentas mais rurais, também assoladas pela doença que tomou Yharnam. 

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Visualmente, no entanto, não houveram avanços gritantes desde Dark Souls II, a única exceção pode ser em detalhes como a forma como a roupa do Caçador interage com o sangue das feras ao entrar em combate ou os detalhes nas vestimentas de nosso personagem. Ao aproximarmos a câmera do protagonista, é possível ver pequenos detalhes na costura de seu traje e, após o combate, sangue é espalhado por todo o tecido, refletindo a luz e dando um ar mais “realista” ao combate. Além disso, o sangue não aparece em lugares pré-definidos, cada mancha de sangue é individual e sempre é diferente.

A trilha sonora seguiu o mesmo padrão dos jogos anteriores da produtora, a música está presente apenas em lugares específicos, como em lutas contra chefes ou no Sonho do Caçador (uma espécie de “safe room”). As faixas são praticamente todas por orquestras e corais, dando um ar de tensão, definindo o ritmo das batalhas e até mesmo ajudando a dar uma identidade para cada chefe do jogo. O maior exemplo disso é a primeira luta contra a Clerical Beast (fique tranquilo, não tem spoilers por aqui!), a música possui corais fortes e instrumentos variados que aumentam bastante a tensão na hora do combate.

Outro ponto interessante do jogo é a passagem do tempo. Conforme o jogador progride na história, o sol se põe e a lua se ergue, desencadeando mudanças no comportamento dos inimigos e até mesmo de NPCs.

As principais diferenças dos outros títulos estão no combate e na forma como ele é ocorre. Existe apenas um escudo em Bloodborne, mas ele não é nem próximo de ser o que os escudos de Dark Souls representam. Não existe uma forma eficiente de bloquear um ataque, ao invés disso, o jogador é obrigado a desviar ou contra-atacar usando uma arma de fogo. A esquiva consome menos stamina e é mais rápida, mas isso também faz com que os inimigos sejam notavelmente mais rápidos e agressivos. Resumindo, o combate é mais veloz e requer mais atenção do jogador.

A variedade de armas diminuiu… Mas também aumentou. Veja, nos títulos anteriores existiam tipos diferentes de armas: swords, greatswords, axe, greataxes, lanças e por aí vai. Havia uma grande variedade em cada classe, com requerimentos, atributos e visuais diferentes, mas ao entrar em combate percebia-se que todas as armas tinham o mesmo movimento, com pequenas alterações entre uma arma e outra. Em Bloordborne existe menos armas, mas cada uma conta com duas formas diferentes com movimentos distintos. É necessário falar também das magias, que não foram completamente removidas, mas reduzidas em número e agora são menos diversas e mais difíceis de obter. Para usar mágica em Bloodborne é necessário obter itens chamados de Ferramentas de Caçador, que utilizam a mesma munição de armas de fogo como recurso. Além disso, as Ferramentas de Caçados são obtidas relativamente tarde no jogo, ao contrário do que acontecia nos jogos da série Soul, onde era possível até mesmo começar com alguns feitiços. Essa mudança ocorreu, provavelmente, para se adequar ao período histórico em que o game se passa: ao se lutar contra dragões e mortos-vivo era aceitável que houvesse magia envolvida no combate, mas ao lutar contra humanos e feras transformadas, nem tanto.

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Não é que a ideia dessa mudança seja para tornar o jogo mais realista, de forma alguma, mas sim porque seria possível levantar algumas perguntas como “Mas por que não se usa magia para erradicar a doença?”. Claro que essas perguntas poderiam ser respondidas através de, por exemplo, textos encontrados em livros, mas provavelmente o melhor a fazer era mesmo mudar a fórmula do jogo.

E claro, não podemos citar um jogo da From Software sem falar da dificuldade. Para os jogadores que não conhecem os outros produtos da empresa a experiência de Bloodborne será extremamente frustrante num primeiro momento, mas se tornará desafiadora e divertida com o tempo, dependendo do perfil do jogador. Ficar preso por algumas horas na primeira área do jogo é normal e ficar algumas outras horas preso no primeiro chefe também é, mas tudo isso depende do quão rápido você consegue entender que não está jogando God of War e que tudo nesse jogo foi feito pra lhe prejudicar de alguma forma. Para os fãs da produtora que já estão acostumados com armadilhas, inimigos escondidos e sustos as coisas são um pouco diferentes.

Em certos aspectos, Bloodborne é mais difícil, como a velocidade com que os combates ocorrem, a falta de um método eficiente de causar dano à distância ou até mesmo em área. As armas de fogo causam dano sem necessitar de muita proximidade com o alvo, mas são limitadas por munição e convenhamos, é muito mais eficiente usar um disparo para atrair uma criatura ou contra atacar do que causar dano efetivamente. Além disso, o personagem é bem mais frágil e resiste bem menos à dano causados em combate, mas o mesmo ocorre com inimigos. O número de atributos a serem melhorados também foi reduzido, mas estão mais caros.

Veredito Final:

The legend never dies. Não é qualquer jogo que consegue fazer o jogador passar raiva, zomba da sua cara, te chama de ruim a cada vez que lê “MORREU” impresso em letras garrafais na sua tela e ainda te cativa a continuar jogando. Naquele momento que você consegue superar um desafio, você sabe, esse é o momento em que você solta o controle, levanta da cadeira e ainda fala pra todo mundo ouvir “Eu jogo muito!”. Bloodborne é, sem nenhuma incerteza, um desses jogos e provavelmente é a obra-prima da From Software e é peça obrigatória de qualquer dono de PS4.

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