A Coreia do Sul e sua paixão nacional: os eSports

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A Coreia do Sul é um país localizado no Leste Asiático, que faz fronteira com China, Japão e Coreia do Norte. Um dos países mais desenvolvidos no mundo, suas áreas de destaque são em sua maioria relacionadas à tecnologia, e seus habitantes desfrutam de conexões de altíssima velocidade e muitos outros confortos, como a possibilidade de realizar suas compras de supermercado em uma estação de metrô e terem suas compras entregues no conforto do lar.

Embora atualmente o país esteja em alta na mídia por conta do aclamado hit Gangnam Style, do rapper Psy (e eu sei que você está aí, lendo esta matéria e fazendo o famigerado passo do cavalo),  a grande paixão nacional dos sul coreanos são os eSports. Os esportes eletrônicos trazem uma maneira diferenciada de se jogar videogame, ao invés de se jogar com o simples propósito de se divertir, o objetivo, assim como em qualquer esporte como futebol, basquete ou corrida, é apenas ser o melhor. Para se ter uma pequena noção do impacto do cyber-esporte, jogadores de elite como Lee Jae-Dong, conhecido pelas alcunhas O Tirano ou Matador de Lendas são assediados da mesma maneira que jogadores de futebol ou atores famosos em nosso país.

A febre gamer se iniciou na Coreia do Sul em 1998, ano em que Starcraft, da Blizzard Entertainment, foi lançado. De uma maneira que até hoje é curiosa e nenhuma explicação realmente concreta foi encontrada – não que duvidemos da qualidade do jogo, que é uma das maiores referências dentro do gênero de estratégia em tempo real – o jogo conquistou os sul coreanos a ponto de até hoje, após quinze anos de seu lançamento, ser um dos títulos mais jogados no país.

Um ano antes do lançamento de Starcraft, a economia da Coreia do Sul, assim como a maioria dos países asiáticos entrou em crise. Como um plano para se recuperar da crise, o governo do país resolveu apostar na tecnologia como ferramenta para o crescimento de sua economia, o que em um futuro próximo provou ser um tiro certeiro. Surfando nessa onda, o governo coreano percebeu o potencial econômico cyber-esporte e em 2000 foi criado o KeSPA (a sigla traduzida do inglês significa “Associação Coreana de eSports”), com o objetivo de organizar o crescimento do esporte no país.

No ano 2000 também ocorreu a primeira edição do WCG (World Cyber Games), campeonato mundial que atraiu 174 competidores vindo de 17 países para Seul, a capital da Coreia do Sul. O torneio foi disputado em 5 modalidades, com Age of Empires II: The Age of Kings e Starcraft: Brood War figurando nos jogos de estratégia em tempo real, Unreal Tournament e Quake III Arena entre os FPS e FIFA 2000 entre os títulos de esporte. O prêmio para os vencedores na época era de duzentos mil dólares.

Com a iniciativa do governo aliado à grande febre que o cyber-esporte estava se tornando, encabeçado principalmente por Starcraft, foi natural que as grandes corporações também quisessem tirar uma casquinha do mercado em expansão e não demorou muito até empresas como a Samsung passassem a patrocinar equipes de progamers. Atualmente, um jogador profissional iniciante chega a faturar cerca de cem mil dólares anuais, e jogadores que hoje ocupam a elite do esporte possuem salários anuais que ultrapassam os quinhentos mil dólares por ano.

Mesmo que o cenário progamer esteja se expandindo no Brasil, já contando com jogadores que jogam a nível profissional, como Xaruto, jogador de Pokémon, e GR.Breno F1GHT3RS, que luta nas arenas virtuais de Street Fighter, estamos à anos-luz de chegarmos aos pés do que podemos ver na Coreia do Sul, e um dos motivos principais desta distância é que o conceito de jogador profissional já está enraizado na cultura coreana, enquanto por aqui videogames são considerados hobby, ou até mesmo jogos para crianças.

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Por conta disto, talvez seja comum pensarmos que jogar videogame para viver e ser reconhecido por isso seria um conto de fadas, o que nem sempre é verdade. Como em qualquer esporte, ser um progamer também exige disciplina, muitas horas de dedicação – jogadores profissionais na Coreia geralmente jogam o mesmo jogo de 10 a 12 horas por dia – e com isso também é necessário que se faça sacrifícios. Será que seu jogo favorito continuará sendo divertido se você for obrigado a jogá-lo durante metade do seu dia?

Além disso, estar sentado diante de uma tela de computador durante muitas horas também pode trazer contusões, e é inclusive o principal motivo de aposentadoria por parte dos jogadores. Lendas do esporte como Choi Yeon-Sung – conhecido pelo apelido iloveoov – acabaram sendo forçados a se aposentar por conta de contusões, que em sua maioria acontecem no pulso devido à movimentação excessiva durante extensos períodos.

A indústria dos esportes eletrônicos na Coreia do Sul atualmente é uma das mais rentáveis do país devido aos incentivos do governo e das grandes corporações, que hoje lutam com unhas e dentes para atrair os principais talentos para integrarem seus times. A paixão pelo cyber-esporte é tão grande que as companhias pagam apartamentos luxuosos para os integrantes de seus times morarem e treinarem juntos, com o objetivo de fortalecer o elo entre seus membros e assim aperfeiçoar ao máximo o trabalho em equipe, talvez a habilidade mais bem vista pela população coreana em geral.

Hoje a KeSPA é responsável por administrar campeonatos oficiais de 25 títulos, entre eles o já mencionado Starcraft, Counter Strike, Winning Eleven, entre outros. A WCG passou a acontecer também em outros países do mundo, e a última edição sediada na Coreia do Sul foi a de 2011, na cidade de Busan. A última WCG teve participação de 500 competidores, espalhados por 40 países e o número de modalidades dobrou desde sua primeira edição. Embora o valor da premiação desta edição tenha ficado em $258.000, a WCG já chegou a contar com meio milhão de dólares como prêmio para os vencedores e suas partidas são televisionadas por todo o país.

Atualmente, há canais de televisão dedicados apenas à transmissão de partidas profissionais, sendo que desses canais, dois deles passam exclusivamente partidas de Starcraft: Brood War e Starcraft II: Wings of Liberty. Mesmo que o primeirto título já tenha cravado seu nome na história da Coreia, o jogo por fim está lentamente cedendo seu espaço para sua sequência, e muitos jogadores profissionais da primeira versão do jogo se aposentaram para começar seus próprios times de Starcraft II.

Por fim, a cultura voltada aos jogos eletrônicos da Coreia do Sul é extensa e falar de todos seus aspectos em um único texto é uma tarefa que nem Hércules poderia resolver. Dentre elas, podemos citar todo o impacto do gênero MMORPG na população coreana; as badaladas PC Baangs, que são o ponto de encontro dos jovens coreanos e também o incrível crescimento do mercado de jogos para celular, onde é possível ver que coreanos de todas as idades e gêneros adoram passar o tempo “brincando” no celular.

Quem sabe vemos um pouco mais da incrível cultura gamer do país em futuras matérias aqui no P2. O que você acha do cenário dos esportes eletrônicos na Coreia do Sul? Gostaria de ver um cenário parecido em nosso país? Deixe seu comentário!

Revisão: Luigi Olivieri