Dark Souls e a questão da dificuldade nos games

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Dark Souls é um game que divide opiniões e se destaca por ser um expoente da dificuldade avançada em um mar de jogos que te pegam pela mão e são recheados de dicas, códigos, tutoriais e mimos. É claro que ele possui outros méritos, como um enredo rico e uma estrutura que confere total liberdade – por vezes até demais – ao jogador.

O principal atrativo de Dark Souls é o nível absurdo de dificuldade que o game impõe a quem se aventura nele. Os amantes dessa fórmula criada pela From Software veem em Bloodborne, Dark Souls e Demon’s Souls a oportunidade de gozar de uma experiência imersiva que prende o jogador na marra pela concentração e pela tensão constante. Você tem de se engajar igualmente para enfrentar um chefão e um inimigo comum, pode morrer a qualquer movimento equivocado e perde todas as almas coletadas quando é derrotado. Nesses games, morrer não é uma opção.

Talvez pela proliferação de jogos de tiro em primeira pessoa, a morte foi banalizada nos últimos 15 anos, tornando-se uma mera pedra no sapato e não uma preocupação real e iminente como em Dark Souls. A busca por novos mercados e a cruzada pelo público casual iniciada pela Nintendo e levada a cabo pelos smartphones. A consequência é que hoje os jogos te pegam pela mão e o conduzem por um caminho pouco ameaçador, sendo que as mortes não costumam significar um prejuízo muito grande na maior parte dos casos.

Em épocas mais distantes, a dificuldade se dava por ausência de capacidade técnica para criar ambientes cujo level design fosse adequado ou por simples falta de bom senso dos desenvolvedores na hora de bolar o roteiro, deixando o jogador ao léu sem nenhuma pista do que fazer a seguir. Games como Zelda II, Contra, Super Mario Bros: The Lost Levels, Battletoads e o insano shoot ‘em up Ikaruga são tão desafiadores quanto Dark Souls, mas sem as sensações de frustração e injustiça que este proporciona e priorizando a diversão mesmo com o fator de dificuldade – é claro que Ikaruga é uma exceção a essa regra.

Vivemos a era do tutorial, da ajuda de mira e do famigerado “pay to win”, e Dark Souls sobrevive como um oásis de indiferença nesse mar de mãos estendidas, o que confere a ele um apelo forte para o público mais hardcore. No entanto, o combate que se torna repetitivo após passar uma hora desviando, esquivando, pulando e atacando faz do game um verdadeiro teste de timing e coordenação motora muitas vezes, deixando de lado o entretenimento – apesar de muitos masoquistas fãs se divertirem justamente com esse aspecto.

A questão é que não é necessário criar uma fórmula de sucesso cuja única grande atração seja a dificuldade por si só quando um level design bem feito pode fazer o desafio ser um elemento a mais em meio a outras qualidades, como uma história bem construída, personagens cativantes, gráficos envolventes, jogabilidade fluida e diversão.

Quem quiser refletir mais sobre o assunto pode assistir a esse vídeo que inspirou meu texto.