Ditadura dos gráficos

“Os videogames foram feitos para divertir”. Essa é uma verdade universal que todos conhecemos muito bem, desde quando éramos pequenos gafanhotos, simples jovens jogando nossos queridos videogames e controlando incompreensíveis borrões de píxels na pequena tela de uma TV de tubo. Antigamente, ninguém se importava se o game era em 8-bit ou se não tinha 30 animações diferentes para o mesmo personagem a cada movimento. As pessoas jogavam com o simples e exclusivo intuito de se divertir, sem compromisso.

Mas a tecnologia começou a evoluir cada vez mais em relação à capacidade gráfica dos consoles, os píxels se transformaram em polígonos, e estes começaram a tomar formas mais realistas e definidas, até que hoje sua tia te vê jogando LA Noire e pergunta que filme você está assistindo. Claro que a evolução nos jogos é sempre bem-vinda e abre novos horizontes para os desenvolvedores, afinal vários gêneros como FPS e sandbox seriam inviáveis alguns anos atrás, e hoje dominam as prateleiras.

Essas novidades acabaram deslumbrando demais algumas pessoas, e os gráficos foram, pouco a pouco, conquistando mais espaço até se tornar, para muitos, o aspecto mais importante num jogo. Hoje em dia é normal ouvir críticas a games pelo simples fato deles não apresentarem um visual tão realista quanto outros jogos da geração. Muitos deixam de jogar algum título só porque os gráficos não são bons, sem nem se importar com o fator diversão.

Um bom exemplo disso é No More Heroes, para Wii e PS3, que tem um visual notavelmente mal feito. Na verdade, o game pode ser interpretado como uma crítica a essa febre atual por ter muitas referências a jogos antigos e por seus gráficos serem ruins quase que de propósito. Apesar desse aspecto, o jogo em si é excelente, com personagens cativantes e uma história bem elaborada, mas seria um sucesso muito maior se fosse mais bonito. O que conta mais hoje é um visual impactante, muito diferente de anos atrás, quando as pessoas nem tinham toda essa sensibilidade para julgar os gráficos de um game, tanto que o jogo foi portado para o PS3 mais a diante.

Parece que as pessoas não jogam mais videogames, mas assistem aos jogos, atentos à cada serrilhado que aparece. E a verdade universal do começo do texto está ficando obsoleta e deixando de se tornar verdade. Quando algum jogo aposta na diversão em detrimento dos gráficos, é taxado de casual e infantil, e os tais “gamers hardcore” torcem o nariz, por mais inovador e divertido que o game possa ser. É lógico que todos gostam de um jogo incrivelmente realista, mas será que não precisamos começar a dar mais valor à diversão, assim como fazíamos antes da “ditadura dos gráficos”?

P.S.: Se vocês acompanham o site, devem saber que eu sou novo por aqui. Meu nome é André, eu escrevo para o Boteco Gamer, e agora também sou colaborador do Player Two, então esperem ver mais textos meus por aqui!