Entrevista: Xaruto (Pokémon)

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Dando continuidade à nossa série sobre competitividade nos games, trago-lhes mais uma entrevista. Bem, eu poderia ter feito uma matéria falando sobre qualquer um dos n games que tem foco na jogabilidade multiplayer, mas eu escolhi a entrevista por ser algo muito mais dinâmico e, de certa forma, interessante. E porque eu adoro conversar também.

Para essa matéria, trago um bate papo com Luiz Cláudio Labriola, ou Xaruto, como é conhecido entre o pessoal que leva Pokémon um pouquinho a sério, à frente de diversos projetos envolvendo os monstrinhos de bolso, como a organização geral da LOP e diversos análises que lê na internet. Se você está assistindo a alguma batalha, de muito alto nível, é muito provável que o Xaruto esteja metido nela. Brincadeiras à parte, vamos começar a entrevista.

PlayerTwo: Bem, primeiro eu gostaria de agradecer por você ter separado um tempinho pra conversar comigo. Agora, vamos à primeira pergunta: quando, como e por que você começou a jogar Pokémon?

Xaruto: Bom, eu assistia o anime na Eliana, e achei muito legal. Era até aquele episódio do ginásio de Saffron, no qual o Ash perde para a Sabrina e vai a Lavander pra pegar um pokémon fantasma pra ganhar a insígnia. Aí depois eu comecei a jogar o card game. Joguei por alguns meses na liga da Devir ainda, que era bem cheia de gente. Depois de um tempo, finalmente comprei minha versão Blue, para Game Boy, e comecei a jogar. Isso foi em 2001, mais ou menos, e comecei a jogar porque gostei muito da estratégia, que era bem limitada na época. Quando saiu a Segunda Geração, eu animei em competir de verdade.

E claro né, a grande culpada disso é a (Revista) Pokémon Club.

O motivo, é que o jogo é bem estratégico, mas parece que o ser humano tem algo que faz ele querer competir com os outros e vencer. No caso de Pokémon, apesar de estarmos um pouco sujeitos aos critical hits, sleeps, paralyzes e frozens, faz você querer vencer o adversário usando a inteligência. E é muito mais legal quando você vence por prever jogadas e coisas do tipo, isso é que particularmente pra mim faz a diferença. Existem outros jogos que tem essa essência, mas Pokémon é o que deve ser o mais simpático pras pessoas.

P2: Ah sim, bacana. Acho que praticamente todo mundo que ainda gosta de Pokémon hoje em dia teve seu primeiro contato ou na Pokémon Club ou nos programas da Eliana. Sem dúvida o ano 2000 foi o de maior popularidade para a série, no Brasil. Lembro que a “febre Pokémon”, como era chamada pela mídia não especializada, estampava chips, cartas, cadernos, bonecos e até roupas. Eu tinha um perfume em forma de pokébola, e aquilo deve ter custado os olhos da cara, na época. (risos)

XT: Cara, eu comprava tudo. Até hoje, se der mole eu compro. (risos)

Você joga Pokémon competitivamente?

P2: Jogo sim, por sua culpa e do Hunter (outro jogador muito antigo). Por isso quis te entrevistar, oras.

XT: Caraca! Pô cara, tu joga por minha causa?

P2: Passei uns dois anos da minha vida lendo as análises que saíam no blog da LOPRJ e na LOPBR. Se bobear eu sei mais dos seus times que você. (risos)

XT: Pô cara, fico MUITO feliz, sério.

P2: Continuando a entrevista, vamos falar um pouco sobre o “jogo mental” entre os adversários em uma batalha. Você disse que tinha começado a jogar sério quando começou a segunda geração de Pokémon. Mas, como você jogava naquela época? Digo, contra quem você jogava na época, já que os jogos não eram tao populares assim.

XT: Rapaz… Você tá desenterrando e erguendo os mortos (risos). Bom, eu era membro da comunidade da Pokéland, que hoje ainda existe mas tá meio “morta-viva”. A Land era mais ou menos como a Pokéevo é hoje em dia.

Naquela época, só dava pra jogar via GameBoy e online via GSCbot, via mIRC. Sem gráficos nem nada, só as batalhas pelo canal de IRC mesmo, e muitas rolando ao mesmo tempo, o que diferenciava as partidas era a cor de fundo do texto e cor do texto. Um pouco depois é que surgiu o simulador gráfico como o Netbattle. Geralmente, o pessoal marcava de testar um time e jogava por lá.
Tinha muitas pessoas com quem eu jogava, mas não lembro do nome da maioria, mas serviam como treino pros torneios oficiais da LOP (LOPE na época).

P2: Cara, eu nem sabia que dava pra jogar pelo mIRC, bruxaria isso (risos).

XT: Já na LOP, tinham os caras a serem batidos, como o Hunter, Sábio, Fritz, Trebor e outros caras tensos de ganhar.

P2: Caramba, isso que era vontade de jogar.

XT: Era vontade mesmo (risos), esse mIRC você tinha que digitar comando pra fazer seu time. Era: say makepoke1 nomedobicho primeiro golpe segundo golpe…

P2: Você pode contar um pouco sobre como foi o processo de “montagem” da LOPBR?

XT: Bom, a montagem eu não participei, mas quem fundou a liga foram o Erick Araki (editor da antiga revista Pokémon Club), Hunter e o Noga. A ideia “LOP” começou em 2001, com o DE4 (Desafio à Elite dos 4) no AnimeCon. Fizeram outro em 2002 e depois, em 2003, finalmente, a LOP nasceu. Com certeza eu confirmo pra você que tinham ligas no Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal. Minha dúvida é quanto a Rio grande do Sul e a LOP de Santos.

P2: Bem, e como você descreve a cena competitiva de Pokémon atualmente, aqui no Brasil?

XT: No cenário nacional, tem a LOP, que possui muiitos jogadores fortes. O metagame (são as batalhas em si) é bem popular e é bem conhecido de quem joga competitivamente. Atualmente temos 15 LOP. 14 regionais e 1 liga Online.

O legal de competir com várias pessoas do país é que você vê partidas de nível bem alto e acaba até aprendendo um pouco mais do que já sabia, porque quando você mistura tanta gente de tanto lugar diferente, acaba vendo que cada lugar tem umas características bem definidas. Por incrível que pareça, tem região do país que prefere usar Togekiss, e outra, gosta mais de Ludicolo, só exemplificando. Então é legal você ver essas influências dos jogadores do local se misturando com as tendências do Pokémon competitivo.
Você sempre tem boas surpresas e acaba te inspirando até a ter ideias diferentes.

Resumindo, a LOP é um bom local para se conhecer gente que joga bem e também pra desenvolver rápido as suas estrategias.

Agora, falando internacionalmente, temos um potencial enorme no Brasil, uma vez que já existem Ligas instaladas em praticamente todos os estados, sendo que com o crescimento e divulgação da LOP só tende a crescer. Já tivemos boas colocações em torneios internacionais. Em 2011, o Mattcoww ficou entre os 50 melhores do mundo no torneio online promovido pela Nintendo, e em 2012, o Pedro Yan, que é Gym leader da LOP-RJ, ficou entre os 10 primeiros do mundo.

Acredito muito que se o Brasil entrar nessa, teremos um campeão brasileiro em muito pouco tempo. Até porque a LOP tem uma vantagem em relação a quem joga somente o competitivo de internet: nós fazemos torneio em formato Double Battle, então pra quem já joga nesse estilo desde Ruby/Sapphire/Emerald, isso é só um detalhe (risos). Existem muitos combos antigos que pouca gente conhece, só o pessoal que jogou as gerações antigas.

P2: Concordo, basta ver os resultados nos campeonatos da Smogon (maior fórum sobre Pokémon competitivo no mundo). Sobre a colocação dos brasileiros em campeonatos organizados lá, o número é relativamente pequeno, mas volta e meia alguém se destaca em algum campeonato.

XT: Exatamente. São 1000 pessoas de fora contra 10 brasileiros, e você vai ver esses caras sempre entre os mais bem qualificados. Tem muita gente que joga nessas comunidades de fora e se destaca, muita gente mesmo.

Eu acho que é basicamente uma questão de oportunidade, se tivermos, com certeza é bem provável que tenha um campeão brasileiro em alguma categoria.

P2: Está na hora do Ray Rizzo (tricampeão mundial na categoria Masters) pular fora dali.

XT: É, tá na hora. (risos)

P2: Agora é a hora do momento relax da entrevista. Quais são seus pokémon favoritos? Eles não precisam estar envolvidos diretamente no metagame, mas não me venha com Pikachu. (risos)

XT: Bom, são os caras que eu sempre vou lembrar. Por exemplo Tyranitar, o Kazekage, em 2005 surrou a E4 inteira, e me fez campeão da E4 em 2005. Zapdos, o Raikage, que também estava no mesmo time, e só deu golpe na fase classificatória do torneio, porque contra a E4, só serviu pra assustar os caras e forçar jogadas. Kingdra, a Katita, já virou muitos jogos em Gold/Silver/Crystal. Heracross, o Xarutinho, (muitos risos) que já subiu muito na Salac Berry (aumenta a Speed do Pokémon em 1 nível, se o mesmo estiver com menos de 25% de HP) e varreu o time dos outros.

P2: Esse Zapdos era mais na linha defensiva, né?

XT: Não mesmo, o set dele era Roar, Hidden Power Ice, Thunderbolt e Substitute.

P2: Eu não gostaria de estar contra esse time (risos).

XT: E tem outros, Blaziken, Snorlax. Não posso deixar de citar o Rayquaza, qualquer dia faço uma tatuagem dele.

P2: Pois é, nada intimida mais que um Rayquaza shiny.

XT: Um shiny, depois de um Swords Dance (dobra o valor do Attack), e com seu time paralisado, pode dar run que não tem como virar a partida.

P2: Putz, aí você forçou a amizade, né. Só me sinto numa situação nula se eu estiver com um Garchomp no Sandstorm. Aí eu enfrento até o capiroto.

XT: (risos) Garchomp é muito roubado cara, nem tem graça. Agora que liberaram ele com a Ability Rough Skin, até deu uma melhorada, mas ele continua muito “apelão”. Por isso que ele não pode ser favorito. Ele entra e resolve.

Não precisa nem de muito predict. É que ele é tão “ignorante” que, digamos assim, entre quem entrar, vai apanhar e sério. (risos)
Por exemplo, se você olha o time do cara e sabe que ele tem um Pokémon do tipo Steel que tem chances de ser um metálico pra ataque, como o Scizor ou Jirachi, é só você forçar duas situações para a entrada deles na arena que o adversário cai. Depois que eles saírem da jogada, é só dar Outrage que o restante do time vai embora. Na 5ª geração o jogo tá tão ofensivo que tem vezes que mesmo jogando na defensiva não dá pra aguentar os golpes.

PT: Esse é o mal da 5ª geração pra mim, não dá pra jogar na defensiva. Os stats dos Pokémon estão beirando o absurdo. Os monstrinhos da primeira e segunda geração ficaram muito pra trás nesse quesito.

XT: Exatamente. Eu estava conversando com uns amigos sobre isso. Eu duvido que um Charizard se fosse lançado hoje, não seria do tipo Dragon/Fire.

Porque o Charizard tem bons stats, mas chora pra Stealth Rock. E tem vários outros: Suicune, Zapdos, Raikou, Snorlax…
Muitos bichos foram esquecidos porque os novos botam eles no chinelo.

xaruto

P2: Pensando nesses Pokémon mais antigos, eu montei um time que girasse em torno do Trick Room, e deu muito certo. Essa é uma estratégia que pega muito adversário desprevenido.

XT: Trick Room é  uma boa estratégia mesmo, porque se você analisar os stats dos bichos, vai perceber que os pokémon que resistem muito, são lentos e tem altos stats ofensivos.

E os que são muito rápidos, resistem pouco e tem attacks altos. Se você tem um time forte, baseado em Speed, a sua ruína é o Trick Room.

P2: Agora, eu gostaria de saber um pouco sobre o Luiz Cláudio, já que quem estava falando até agora era o Xaruto (risos). Além de Pokémon, o que você costuma fazer nas horas vagas?

XT: Bom, sou estudante de engenharia, então não tenho tantas horas vagas ( muitos risos). Além do Pokémon, eu jogo outros jogos de estratégia. Por exemplo, comecei a aprender xadrez.

P2: E quantas horas de Pokémon você costuma jogar por dia?

XT: Bom, atualmente eu assisto mais partidas do que outra coisa. Ultimamente, tenho jogado bem pouco, só quando preciso defender a E4. Aí começo a jogar com uns 2 a 3 meses de antecedência, por pelo menos 1 hora por dia.

P2: E o que você acha do anúncio da nova geração, XY? E o que esperar dela?

XT: Pra ser sincero, não sei bem o que esperar. Fiquei bem surpreso com o anúncio. Não sei se acho cedo, mas o metagame de BW ainda não está estabilizado, e vai entrar 2014 e já vamos ter uma revolução no metagame.

Novidades sempre são bem vindas, e segundo os rumores que vimos, acho que vai ficar mais fácil de treinar pos monstrinhos. E se for verdade, vai ser legal não precisar de tantas coisas pra pegar um pokémon bom. Acredito que vai ser bom porque vão conseguir explorar todas as funcionalidades do Nintendo 3DS.

P2: E para encerrar, você pode dar algumas dicas pra quem está iniciando no Pokemon competitivo? Aquelas dicas que não disseram pra você quando estava começando?

XT: Primeiro, quem começa a jogar hoje tem que entender exatamente o que é o jogo do Pokémon, você vai conhecer um jogo único que vai te entreter por muitas horas. Se começar com um grupo de amigos vai ser muito bom, porque vocês vão evoluir juntos e competir entre si, o que já acaba estimulando bastante. E não desista caso perca, lembre-se que tem gente que joga há muito mais tempo, então é muito normal perder para alguém mais experiente.

Você só tem que se preocupar em aprender cada vez mais e ser bastante competitivo, porque assim você vai superando as pessoas que eram melhores do que você. Sempre assista partidas de jogadores conhecidos, tente saber o motivo de cada pokémon em sua equipe, o motivo de cada jogada numa partida, e que rumos diferentes a batalha pode tomar caso uma outra opção seja escolhida.
E jogando da forma certa, você vai perceber que pokémon vai te ensinar muito a lidar com as questões da vida, porque você vai se sentir mais calmo e sob controle por mais estressante que seja a situação.

P2: Xaruto, eu só tenho a agradecer por todas as palavras.

XT: Espero não ter sido muito chato ou muito louco (risos).

P2: Quer falar mais alguma coisa? Mandar um beijo pra mãe ou pro papagaio? (risos)

XT: Só agradecer aos organizadores das LOPs. A Liga não seria tão grande sem eles. E também agradecer aos caras que fundaram a LOP, porque sem eles eu não estaria aqui conversando com você hoje.

 Revisão: Luigi Olivieri