FIFA 16 com futebol feminino e a representação da mulher nos games

 

fifa 16

Por Bruna Meneguetti e André Cáceres

Recentemente a Eletronic Arts anunciou que o próximo game da série FIFA vai contar com as modalidades de futebol masculino e feminino. Essa novidade foi muito bem recebida pela comunidade gamer, apesar de alguns comentários de cunho machista que foram desferidos na internet. O que é totalmente incoerente, já que na vida real também existem jogadoras de futebol, assim como em todos os âmbitos da vida. Então, por que deixar as mulheres de fora?

O mercado

A resposta para essa pergunta com certeza não está nos números. Pode até ser verdade que, de início, o número de jogadores era maior. Hoje, porém, a despeito do que muitos pensam, as mulheres representam uma fatia enorme do público gamer: 48%, segundo estudo da Entertainment Software Association (ESA), e esse número vem crescendo. No Brasil, isso também não é diferente. Em 2013 a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) divulgou uma pesquisa segundo a qual 43% do mercado de games é composto por mulheres aqui. E de acordo com um trabalho publicado pela Harris Interactive, nos Estados Unidos, elas são 55% do público online, contando computadores, redes sociais e dispositivos móveis.

Com uma parcela tão grande do mercado, por que as mulheres ainda são tratadas como um nicho pequeno e pouco explorado pela indústria de games? Mesmo com tantas jogadoras, as personagens femininas continuam, em sua maioria, sendo apenas princesas que precisam de resgate ou manequins com pouca roupa que servem de apelo sexual, tendo destaque apenas em casos raros e pontuais.

Mulheres estereotipadas

Desde Pauline, do primeiro arcade do Donkey Kong, em 1981, passando por Peach e Zelda, nas franquias principais da Nintendo, Kairi, de Kingdom Hearts, até a mais recente Yennefer, de The Witcher III, a representação feminina nos games é parca, quando não meramente sexualizada. A posição de princesa que deve ser resgatada é um dos maiores estereótipos e estigmas que permeiam a representação feminina nas narrativas dos jogos, transmitindo a noção de uma mulher frágil que é amplamente difundida na cultura pop, sendo que no mundo real elas não precisam de fato serem salvas por ninguém.

Metal Gear Solid V: Phantom Pain, previsto para setembro de 2015, causou polêmica com a personagem Quiet, que aparecia em trajes quase eróticos. Os jogos de luta, como Street Fighter, Mortal Kombat e King of Fighters, contém vários exemplos de apelo sexual,mas isso alcança níveis extremos e até constrangedores em Dead or Alive, que tem diversas opções de roupas – ou pouca roupa – para as lutadoras.

Personagens do mundo real

A decisão de incluir o futebol feminino no FIFA 16 não é a única ação no sentido de melhorar a representatividade das mulheres nos games. As primeiras personagens fortes surgiram em meados dos anos 80. Em 1985, Kissy, protagonista do arcade Baraduke, e a mundialmente reconhecida Samus Aran, de Metroid, lançado no ano seguinte, pavimentaram o caminho para Marle e Lucca, de Chrono Trigger, em 1995 e a icônica Lara Croft, de Tomb Raider, em 1996, tomarem uma posição mais central nas histórias.

Hoje em dia, grande parte dos RPGs dão a opção de escolher um gênero, como Mass Effect, que traz uma Comandante Shepard forte e não objetificada, Pokémon, que passou a dar essa alternativa a partir de 1999, e os games da série Elder Scrolls. Além disso, outros nomes, como Ellie, de The Last of Us, Faith Connors, de Mirror’s Edge, Chloe, de Uncharted, Aveline de Grandpré, de Assassin’s Creed: Liberation e Bonnie MacFarlane, de Red Dead Redemption, se destacam. Todas elas têm alguns elementos em comum: são fortes, independentes, representam mulheres mais realistas ou fogem de estereótipos e padrões machistas. Mesmo assim, ainda temos um longo caminho pela frente para que tenhamos mais igualidade nos games.

A opinião delas

Perguntamos a algumas jogadoras qual era a opinião delas a respeito da representação das mulheres nos videogames. “Todos os que eu jogo têm personagens masculinos. Normalmente as personagens femininas são secundárias ou estão sendo salvas pelo personagem principal. Eu gostava da Lara Croft, de Tomb Rader, mas, conforme eu cresci, vi como ela era super sexualizada”, conta Fernanda Molinari, que gostaria de ver personagens mulheres “fortes, sem ser a donzela em perigo, que não sejam super sexualizadas, e sem limitações”.

Já, para Mariana Dellamatriz, é importante poder jogar com uma personagem feminina. “Alguns games têm como escolher. Por exemplo, Resident Evil, que tem a opção de escolher a mulher no jogo. Mas ela não é a protagonista”, lamenta a jogadora. Fernanda, que começou a jogar com 6 anos, também afirma: “Eu não me sinto representada, os jogos mais interessantes normalmente tem homens como protagonista. E nenhum deles combate o crime de sunga branca”.

Carolina Zanin, que joga videogames desde os 4 anos e tem no Nintendo 64 seu xodó, contou que seu estilo favorito é o de luta. “Eu jogo vários jogos, mas gosto mesmo é dos de luta. E uma das minhas personagens preferidas é a Mulher Maravilha, pois, por mais q ela seja uma mulher, ela é poderosa, dona de si, mesmo em um jogo onde homens se superam, como Batman, Super Homem, Flash”, afirma ela, que vê com bons olhos o futebol feminino nos games.

“O FIFA 16 vai ser um passo a mais. Apesar de ser muito ruim nele, ter mulheres me incentiva a comprar e tentar algo. Já temos a seleção brasileira de futebol na vida real, além de ser um dos esportes mais praticados por meninas em outros países, um exemplo são os EUA. Isso é um baita passo pra dizer ‘ei, estamos aqui também!’”, acredita. Fernanda também é otimista em relação a isso. “Acho ótimo ter seleção feminina, deveriam ter colocado antes. Mulher também joga futebol. Acho importante para as meninas que jogam se sentirem representadas”, arremata.

Carina Morpurgo é jogadora de videogames e também de futebol na vida real. “Eu cresci jogando video games, especialmente o Super Nintendo, desde jogos como o Super Mario até Aladdin e Top Gear”, lembra ela, que também teve o Nintendo 64 e o Playstation 2, mas com a faculdade acabou se distanciando dos games. “Na verdade, eu achava que não ia mais olhar para videogames até a semana passada. Quando vi que o FIFA 16 terá times de seleções femininas, a minha vontade de jogar ressurgiu. Achei a ideia muito boa, especialmente porque o futebol feminino vem se destacando nos últimos anos e essa é uma forma de reconhecimento para as jogadoras”.

“Se existe um jogo capaz de me fazer voltar a jogar é esse, apenas aguardo o lançamento. Não é só o fato de eu adorar jogar futebol, mas também ver que até um universo mais fechado como o do FIFA, que parecia restrito às mulheres, agora está se abrindo mais para o nosso público. Não sei se eu posso falar pela maioria, mas todas meninas que eu conheço e que jogam futebol amaram a ideia”, conclui.

Com a palavra final, a coautora desse texto:

Para mostrar que aqui não há espaço para preconceitos, esse post foi feito por mim e um homem, expondo cada um o seu ponto de vista. Talvez alguns dos que lerão isso tenham uma visão errada sobre preferências de gostos das mulheres dentro desse ramo. Mas a verdade é que não somos muito diferentes de vocês, ou seja, gostamos de tudo um pouco e cada uma com seus gostos particulares.

Eu, por exemplo, comecei com The Sims e Guitar Hero na casa de uma amiga e a gente varria a noite apostando corridas também. Adorava ir lá, até porque meu pai nunca quis me dar um videogame, pois “era coisa de moleque”. Não adiantou muito, porque sempre mantive uma relação próxima com amigos e amigas que tinham e me deixavam jogar.

Até hoje adoro quando posso escolher uma personagem feminina e forte em um game, especialmente quando estou lutando contra o meu namorado (sempre ganho). Odeio jogos de dança – sou muito ruim neles – e também nunca olhei para os de Barbie ou Hello Kitty. Gosto muito mais do meu DS do que os jogos de celulares, que me cansam. E, por falar em namorado, adoro jogar com ele. Claro que nada disso reflete a opinião de todas as garotas, mas sou uma parte delas e posso dizer, com certeza, que afastar as garotas ou criticar a existência delas em jogos como FIFA apenas traz um prejudicado: o próprio preconceituoso.