H1Z1 e o limite da ganância

h1z1

H1Z1 é uma aula de desenvolvimento de jogos para qualquer um que se interessa pelo assunto. Suas primeiras ideias surgiram no meio de 2014 com características muito similares a DayZ, onde os jogadores devem combater zumbis e outros humanos para sobreviver o máximo possível em um mundo online massivo. Seria possível navegar por servidores e o jogo todo estaria disponível no Steam gratuitamente após o período de testes, e ainda sem a venda de itens absurdos por dinheiro, segundo o desenvolvedor sênior Adam Clegg.

Não há qualquer outro modo de conseguir munição. Você não pode comprar munição, não pode comprar armas, não dá para conseguir em caixas, não tem nenhum jeito. Você precisa encontrar no mundo.

There’s no way you can get ammo any other way. You can’t buy ammo, you can’t buy guns, you can’t get them out of a crate, there’s zero way. You have to find them in the world.

Depois de meses de desenvolvimento, a então Sony Online Entertainment disponibiliza em Janeiro de 2015 uma versão alpha no Steam como Early Access, custando inicialmente 20 dólares (37 reais). A ideia era que os jogadores do alpha dessem seu feedback e deixassem sua marca no game, para que apenas no futuro fosse lançado gratuitamente para PC, PS4 e Xbox One.

Já no dia do lançamento a situação não era boa para o game: era comum jogadores serem recebidos com um erro ao tentar executar o game, e os que passavam da tela inicial tinham problemas como quedas na taxa de quadros ou impossibilidade de pesquisar por servidores ativos. E quem se lembra da promessa de munição não ser monetizável? Quem conseguia entrar no jogo tinha a opção de comprar “pacotes aéreos” com armas, munição e outros equipamentos através de dinheiro real, mas que segundo Adam Clegg era permitido, já que ele não mencionou pacotes aéreos na sua declaração anterior. Ainda assim, a SOE abriu reembolso para os que se sentiram enganados.

Depois do susto inicial, youtubers e streamers tomaram o interior dos Estados Unidos como sua nova casa, atraídos pela imprevisibilidade das relações entre os jogadores e pela aleatoriedade dos itens ao se jogar gratuitamente, trazendo consigo seu público gigantesco. Ainda que possuísse alguns bugs após a correção dos iniciais, como personagens invisíveis e buracos no mapa, ele era mais jogável que DayZ e permitia a construção de armas e estruturas, e as vendas continuaram altas.

A cena estava tão favorável para a SOE, Daybreak Games após ser adquirida por outra empresa, que eles resolvem monetizar um pouco mais a brincadeira. Como uma alternativa para conseguir convites para o modo Battle Royale, um Jogos Vorazes com zumbis, a dev anunciou a fantástica ideia de vender uma inscrição mensal de 7 dólares, que liberaria o modo por 30 dias e mais alguns mapas exclusivos para os assinantes. Em um jogo gratuito cujo alpha custa 37 reais. Bastou um dia e diversas broncas por parte dos jogadores para a ideia ir para a gaveta.

A gaveta da Daybreak, no entanto, parece tão rasa quando sua carteira, e uma nova carta apareceu na mesa na última semana. Ao invés de oferecer um passe mensal opcional e continuar com os drops de convites em mapas normais, a nova ideia já implementada divide H1Z1 em dois jogos, um com o modo normal, “Just Survive”, e o antigo Battle Royale, o “King of the Hill”. Como eram duas equipes diferentes que produziam os modos, pareceu lógico para a Daybreak oferecê-los separadamente

h1z2

Quem já tinha o original apenas ganhou mais um joguinho na biblioteca do Steam, mas novos compradores precisam adquirir cada um por 37 reais. “Mas espera, 74 reais para comprar a versão alpha de um, ou melhor, dois jogos gratuitos?”. Não, porque agora, com essa recente mudança, nenhum deles será mais gratuito após o lançamento! Além disso, já é possível comprar Daybreak Points com dinheiro real, que podem ser usados para comprar chaves para abrir caixas com itens como em CS:GO, por exemplo.

O problema não está em cobrar por um jogo ou adicionar microtransações, e sim na desenvolvedora cagar na cabeça do seu consumidor e este aplaudir. O problema está nela cuidar de uma versão alpha por um ano, não conseguir resolver bugs e problemas com cheaters, mas sempre ter uma ideia criativa de fazer o jogador colocar mais uma moedinha na máquina. Está nela conseguir visibilidade e interesse da plateia por anunciar um jogo gratuito e microtransações que não iriam interferir na jogabilidade, e, quando quebra a promessa, avisar que os insatisfeitos devem é pedir refund.

Mesmo que as mudanças não afetem alguns jogadores ou que estes não liguem para os bugs intermináveis, fechar o olho para a péssima gerência de H1Z1 que a Daybreak faz é pedir para dar errado. Por esse histórico, nada impede que eles empurrem os problemas com a barriga enquanto ganham uma grana em cima de quem acha que isso é ok só porque está se divertindo um pouco, ou pior, que eles simplesmente desistam do lançamento, virem as costas e sumam do mapa com o dinheiro que conseguiram até então. Ser conivente é muito pior do que ser desinformado, e “apesar da crise”, essa história ainda tem muito espaço para piorar. E vai piorar.

About Luigi Olivieri

Membro fundador dessa página maravilhosa que chamamos de PlayerTwo.com.br. Mestre pokémon, fã de rogue-likes e tuiteiro de plantão (@luigilol).