O fenômeno das locadoras

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A rápida ascensão e o sofrível desaparecimento das locadoras foram fenômenos claramente perceptíveis ao longo dos anos. Com o surgimento do VHS, ir ao cinema não era mais imperativo para assistir a algum filme. A possibilidade de aproveitar as películas no conforto de casa criou um cenário propício à disseminação desse tipo de comércio, que brotou por toda a cidade e alcançou o auge durante a década de 1990. Vinte anos após o boom das locadoras, como sobrevivem esses estabelecimentos hoje em dia?

A popularização da rede mundial de computadores fez o negócio despencar. “Não só a internet, mas a pirataria também prejudicou muito as locadoras”, lembra Julio Cesar Borges, filho do dono da Comics, localizada em São Caetano do Sul. Na ativa desde 1994, o local deixou de alugar apenas filmes e voltou o olhar para os videogames. “Locação de jogos ainda é bastante lucrativa, e vai melhorar muito por que a pirataria está acabando”, acrescenta o rapaz que divide a atenção entre os aluguéis de games e a administração dos torneios que a Comics realiza todos os fins de semana.

As locadoras acabaram tornando-se ponto de encontro para aficionados por filmes ou games. Com o tempo, os clientes deixaram de consumir tanto, mas continuaram a frequentar os espaços. Organizar campeonatos entre o público foi uma ação que manteve a lucratividade e atraiu mais jovens. “A maioria dos que vêm aqui têm entre 12 e 19 anos”, afirma Julio Cesar.

Ambientes muito queridos pelos mais saudosistas, esses estabelecimentos se sentiram obrigados a mudar os rumos e passaram a alugar jogos de videogame ao invés de filmes. Por causa dessa nova demanda do mercado, muitos acabaram tendo que fechar as portas por não se adequar aos tempos modernos. Mesmo os que realizaram essa transição enfrentaram sérias dificuldades por alguns anos.

“Na época do Playstation 2, era complicado porque tinha muito jogo pirata e ninguém queria saber de comprar ou alugar os originais”, lamenta Fernando Alves, gerente da Game Store, no bairro do Tatuapé, em São Paulo. Ele reconhece que as restrições contra a pirataria implementadas pelas empresas de games salvaram as locadoras. “Com os videogames novos, praticamente não existem mais falsificações. Os jogos são muito caros, então o pessoal aluga primeiro para ter certeza de que gosta e só depois compra mesmo”, diz Fernando.

“Mas só oferecer para alugar não adianta. Pra ir pra frente, tem que vender também”, adverte Fernando. Diferente da maioria, essa locadora começou em 1999 já trabalhando com games. “Quando apareceu a onda dos jogos paralelos, que eram bem mais baratos, nós começamos a alugar filmes também para sobreviver”. Hoje o cenário é diferente, pois a pirataria está com os dias contados devido às novas medidas de segurança das fabricantes de consoles.

“Hoje em dia quem só faz locação de DVDs não tem mais como se manter, estão todos fechando. O tal do Netflix e os outros serviços que disponibilizam seriados e filmes pela internet quebraram as pernas de um monte de gente”. A afirmação parece ser verdadeira mesmo, porque a menos de cem metros dali, a locadora Renata Filmes, que antes só disponibilizava películas, hoje reserva uma parede inteira somente para videogames.

“No começo, a gente alugava só as fitas. Depois, começou a aparecer DVD e Blu-Ray, mas a clientela estava sumindo cada vez mais. O jeito foi migrar pros videogames, senão a loja ia falir. Hoje, ainda temos filmes, mas a procura pelos jogos está aumentando”, narra Luciana dos Santos, que trabalha no caixa da Renata Filmes. “Daqui pra frente, não sei o que vai acontecer, mas a tendência é que a busca pelos games continue crescendo”, acrescenta.

Essa é a tônica no mundo inteiro. Enquanto o filme mais bem-sucedido de Hollywood é “Avatar”, que desde 2009 já movimentou US$2,7 bilhões, o jogo “Grand Theft Auto V”, lançado no final de 2013, faturou US$1 bilhão nos primeiros três dias. Os números são impressionantes e indicam que a indústria de jogos vem se expandindo amplamente nos últimos anos.

Os consoles atuais, como o Playstation 4 e Xbox One precisam de conexão com a internet para funcionar, impedindo que jogos pirateados sejam executados, pois a fiscalização online ocorre constantemente. Esse fator, somado aos serviços de streaming de filmes pela internet fizeram com que as locadoras tomassem os games como principal produto.

Entretanto, o futuro parece trazer bons ventos, afinal quem trabalha no ramo demonstra otimismo em relação aos próximos anos. “Daqui pra frente, acho que os lucros só vão aumentar”, prevê Julio. Tomando as palavras do concorrente como suas, Fernando acrescenta: “agora devem aparecer cada vez mais locadoras de jogos”.