O caso da Poison e a comunidade LGBT nos jogos

Um assunto que não é lá muito explorado (pelo menos no Brasil) é o problema que permeia as representações nos jogos. Uma delas é a falta de diversidade na orientação sexual dos personagens, predominantemente heterossexuais – explícita ou implicitamente. E quando algum jogo sai da total heteronormatividade, como Mass Effect 3 com a opção de se fazer um Shepard gay (ou qualquer outro que teve uma visibilidade considerável), muitos fazem cara feia, mesmo quando isso é uma opção, e não obrigação. De quebra, ainda há o risco de tais representações serem estereotipadas ou degradantes.

Crystal, autora do blog Gaming Bus, fez uma série de posts contando a história LBGT nos jogos em épocas diferentes: anos 80, 90, 2000 (primeira e segunda partes) e atualmente. Em geral os posts são extensos (e falam bem mais do que eu poderia escrever aqui, são bem informativos), mas vale a pena dar uma olhada.

Quanto à Poison – que é citada no primeiro post linkado –, ela tem uma história interessante devido à polêmica de ser transsexual e muitos afirmarem que não, ela já nasceu mulher. Em fevereiro, o youtuber MegatonStammer pesquisou sobre a origens de Poison e criou um tipo de mini documentário mostrando todas as evidências que encontrou para confirmar que ela é, sim, transgênero; e também que fim levou Roxy:

Mais tarde, depois da repercussão do vídeo, ele fez uma continuação corrigindo alguns erros e complementando algumas informações:

Funfact: Lá pelos 12 minutos do segundo vídeo, aparece esse simpático desenho com vários personagens perseguindo o Megaton:

Apesar de não estar muito óbvio, há algo em comum entre eles: todos são transgêneros, tanto que alguns deles aparecem nos posts da Crystal. Entre todos, temos um homem trans, andróginos e outro que possui duas vozes simultâneas, masculina e feminina. No vídeo original o autor deixou a lista dos nomes, sendo eles:

Shion de King of Fighters XI
Bridget de Guilty Gear XX
Alfred Ashford de Resident Evil Code: Veronica
Leo Kliesen de Tekken 6
Kaine de Nier
Vivian de Paper Mario
Guillo de Baten Kaitos Origins
Hans the Fox de Bloddy Roar
Flea de Chrono Trigger
Erica Anderson de Catherine
Birdo de Super Mario Bros 2
E Poison (duh) de Final Fight

Finalmente, é importante sim reconhecer a necessidade de refletir a respeito porque esse não é um problema exclusivo dos jogos, mas um sintoma de uma mentalidade generalizada e preconceituosa que deve ser questionada, a começar tanto pelos desenvolvedores quanto pelos próprios jogadores.

  • Hikkari

    É muito difícil tentar bater de frente com um moralismo que nos acompanha desde sempre, na verdade, diria que é inútil. As pessoas precisam de motivos para falar, para tentar polemizar e, nesse ponto de indústria, vai ser mais ainda. Os produtores dão depoimentos confusos, deixam histórias em aberto e afins, no final só quem ganha é eles, já que alguma massa acaba se interessando e indo atrás pra comprar aquilo.

    Querendo ou não, essa tática LGBT acaba vendendo e acaba sendo notícia, ninguém da indústria coloca um personagem homossexual ou uma opção de relação homo afetiva por simples direitos dos gays, não, eles querem polemizar. E no final sempre dá certo, aquele que faz piadas de gays acaba tendo curiosidade de ver como é, acaba soltando um comentário na rede, acaba polemizando de alguma maneira. De algum jeito aquilo vai marcar alguém e, no final das contas vai também acabar vendendo.

    E o pior de tudo que as coisas vão estar sendo sempre estereotipadas, os personagens que forem totalmente assumidos vão acabar sendo um tipo de caricatura escrachada do homossexualismo. Se alguém já via motivo para escrotizar pessoas do gênero, com um personagem totalmente debochado, vai ver mais e mais motivos. As coisas tendem a ser sempre assim.

    Ótimo texto, Taís.

  • Acho que a falta de diversidade na orientação sexual dos personagens se deve exclusivamente pela falta de diversidade na orientação sexual das pessoas em geral. 3% a 13% da população se considera homossexual, outros estudos apontam que 22% pelo menos possui alguma tendência, querer que todo jogo tenha algum representante homossexual faz começar parecer "forçado", tipo só colocou a personagem ali para cumprir as cotas de minorias. O criador deve ser livre para colocar os personagens que quiser, se quiser fazer um jogo só de homossexuais blz, só com hetero blz, os dois.. blz tbm.

    • tfantoni

      A ideia não é colocar LGBT's em TODOS os jogos, isso é completamente ilógico. Não precisa partir pro extremismo 8 ou 80. É como querer que todos os jogos tivessem, sei lá, veículos. E cotas pra isso não existem. A ideia é questionar tanto a quantidade quanto qualidade dos personagens que não se resumem apenas em sua orientação sexual, e duvido muito que, se pegássemos todos os jogos que possuem humanos, eles conseguissem representar essa porcentagem que você falou. Principalmente no que diz respeito a representações positivas/relevantes.

      É muito cômodo dizer "o criador tem liberdade pra isso e aquilo" desconsiderando que o jogo, por mais que seja considerado como arte, ainda é um produto. A menos que você queira criar alguma coisa para polemizar de propósito, deve-se levar em conta o fator cultural, moral e ético. Além disso, a grande maioria das pessoas está imersa na heteronormatividade, então você criar personagens héteros (ou brancos ou masculinos ou magros) é mais do que previsível – e como eu falei no fim do texto, não é exclusivo da indústria de jogos. É bastante difícil você se deparar com desenvolvedores que criam o personagem preocupados em não fazer mais do mesmo (como o criador de Faith, Mirror's Edge). Com personagens LGBT's, isso não é diferente. Porque isso não é visto como um problema, com algo para se questionar. É feito no automático. Simples assim.

  • Essas tretas da Poison não foi puro erro de tradução?

    • Jo Esbarzera

      Não querendo parecer mal-educado, mas você ao menos assistiu aos vídeos?…

  • leandroleonbelmont

    e em Kof o que diabos é o Chris? é menino ou menina?