Por que The Last of Us surpreendeu tanto com sua história?

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Todos falam de The Last of Us e, de fato, esse é um dos melhores games de todos os tempos. Lançado dois anos atrás, ainda é debatido e discutido pela internet, e muitas especulações surgem sobre uma possível continuação ou um segundo game no mesmo universo. Mas a história de The Last of Us é relativamente simples, o que nos faz ponderar qual é o grande acerto da obra da Naughty Dog. Vamos voltar no tempo para entende uma sutileza que torna a história de Joel tão magnífica.

Não é necessário dizer que o final desse texto contém spoilers (não explícitos, mas ainda assim spoilers) sobre The Last of Us. Leia por sua conta e risco.

Desde que o ser humano começou a disseminar histórias oralmente, um padrão de narrativas bem claro foi sendo formado e moldado. Seja na Epopeia de Gilgamesh – primeira grande obra da literatura já registrada na história da humanidade -, nos épicos Ilíada e Odisseia, nos textos religiosos, em peças de Shakespeare, em livros de J.R.R. Tolkien, em filmes de Hollywood ou em jogos de aventura, os homens sempre estruturaram seus contos em torno da figura do herói.

Essa noção foi estudada durante muito tempo pelo psiquiatra Carl Jung, que criou o conceito do arquétipo e posteriormente por Joseph Campbell, que aplicou os estudos da psicologia nas histórias, identificando os padrões míticos que se reproduziam nas narrativas humanas com algumas variações, é claro, mas que podiam ser vislumbrados em qualquer história, desde filmes da Disney até lendas indígenas.

Mais tarde, o roteirista e executivo hollywoodiano Christopher Voegler tomou como base as teorias de Jung e Campbell para escrever A Jornada do Herói, um livro que sintetizava todas essas ideias de forma didática e que é usado até hoje para guiar filmes, livros e games por um padrão já conhecido de narrativa, facilmente digerível para o público e que traz sensação de plenitude por dar um ciclo completo ao herói e à história.

Qualquer pessoa que estude cinema, literatura ou games deve entrar em contato com esse livro, que se tornou praticamente uma receita de sucesso para histórias, apontando caminhos que sempre são tomados desde os mitos da antiguidade até hoje em dia nas tramas mais intrincadas de seriados, oferecendo uma fórmula para criar personagens e relações. É óbvio que isso deve servir apenas de guia para que a narração tenha consistência e as fugas desse padrão é que criam as reviravoltas.

The Last of Us não é o único, muito menos o primeiro game a construir personagens assim, mas é um dos títulos que o fez com mais maestria, seguindo todos os passos clássicos das narrativas e fazendo o herói se confrontar com o fato de que ele não é onipotente e não pode salvar a todos. Bioshock, Chrono Trigger, Child of Light e muitos outros também são muito bem estruturados nesse sentido.

A maior parte dos jogos, por dar o controle ao jogador, tenta oferecer o máximo de liberdade possível, suprimindo as fraquezas e nuances de seus protagonistas em prol da idealização de um herói imbatível. GTA, Just Cause, Saints Row e Assassin’s Creed são exemplos disso em games de sandbox, mas qualquer jogo de aventura que traga uma infinidade de inimigos facilmente derrotados pelo personagem, como Uncharted e Tomb Raider, reforçam essa questão.

No entanto, um herói não deve ser invencível, pois precisa se confrontar com o fato de não poder realizar tudo o que quer. Esse vídeo do canal Extra Credits explica isso profundamente. Além disso, o protagonista deve demonstrar defeitos, mesmo que possa superá-los para vencer os obstáculos que lhe são impostos. É aí que The Last of Us se destaca com louvor.

Joel age de maneira extremamente egoísta no final do jogo, priorizando seus próprios sentimentos em detrimento da possibilidade de cura que potencialmente beneficiaria toda a humanidade. Essa decisão entra em conflito com a ideia de herói e faz de The Last of Us uma história arrebatadora por sua impiedade, envolvente por seu desenvolvimento e surpreendente por seu desfecho.