Vamos falar sobre respeito

respeito

Foi-se a época em que jogos eletrônicos eram coisa de moleque. As histórias de cavaleiros destemidos salvando donzelas indefesas passam a dar lugar com cada vez mais frequência a enredos mais variados, protagonizando Aritanas e Sarahs, ou então à possibilidade de escolher um sexo para o personagem – e em alguns casos até as representações de gênero.

Isso faz com que grupos que antes não tinham interesse no assunto passem a se identificar com os jogos e a consumi-los. Numa geração onde a internet é incrivelmente acessível – escrevo isso de um vagão de trem -, não tem por que segmentar jogadores por motivos tão insignificantes. Ainda assim, essa segregação é bem comum em nosso mercado, principalmente no mundo online.

Em ambos as categorias, online e offline, as desenvolvedoras são fundamentais para determinar o quão inclusivo é seu game: colocar ou não personagens diversificados, como em Witcher 3 e agora em Mafia 3, e qual o impacto destes na trama. Entretanto, quando a interação entre jogadores é peça-chave na jogabilidade, as ações destes têm um impacto tão grande quanto, e deveriam ser tratadas.

Quem nunca viu – ou sofreu – agressões verbais fortíssimas durante partidas de MOBAs ou FPSs? As vezes não é preciso nem jogar mal para receber uma patada (o que ainda assim não justificaria), basta ter um nick que não seja 100% de um homem heterossexual para começar o “tinha que ser mulher” ou afins. Há diversas maneiras de se encarar o problema por parte das desenvolvedoras, e hoje vamos ver três bem distintas: a primeira da Ongame, a segunda da Level Up e a terceira da Riot.

A primeira tem provavelmente a forma mais sensata de tratar o problema. Na última semana, a Ongame lançou uma campanha para Point Blank chamada #JogueComoUmaMulher, para mostrar que elas são tão boas, ou até melhores, que o sexo oposto, mas são muito mais ofendidas que eles. Com três frentes, a ação começou com dados estatísticos reunidos pela própria empresa, que indicavam que 43% do público nacional é feminino, e apenas 0,4% dos bans por má conduta em jogos são direcionados a elas.

Em seguida, algumas youtubers parceiras começaram a discutir o assunto e chamar suas espectadoras para a “luta”, que podiam participar publicando uma foto com a hashtag que dá nome à campanha. O álbum de fotos reuniu mais de 120 pessoas, incluindo os dois funcionários da Ongame na foto acima, e apesar da falta de respeito de aleatórios nos comentários, foi um excelente primeiro passo para dar voz às moças e um “headshot no preconceito”.

Uma semana antes, a Level Up Games lançava uma campanha completamente oposta à que foi descrita acima. Duas modelos estrelavam um pequeno viral de 50 segundos, onde faziam uma guerra de travesseiros de camiseta e biquíni e depois se atiravam com arminhas de brinquedo, também usando traje de banho. A promoção é para um novo evento em Combat Arms exclusivo para o Brasil, que traz duas personagens obviamente de biquíni para os campos de guerra, num jogo onde o homem mais despido usa uma regata e uma calça de malha pesada.

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Não demorou muito para a mídia, e a própria comunidade, repudiar: o Overloadr fez um excelente texto sobre o assunto, e o vídeo em questão tem hoje duas vezes mais dislikes do que interações positivas. Em sua resposta, a LUG afirmou que já fez campanhas promovendo todas as formas de amor e que apoia a “igualdade e o respeito entre os sexos, as orientações sexuais e todos os jogadores”. Apesar disso e de atestar que está estudando o feedback recebido, mais alguns vídeos da mesma linha foram veiculados.

O último caso, mais precisamente a falta de um, vem da Riot Games, desenvolvedora com um dos maiores públicos entre os MMOs nos dias de hoje. League of Legends tem uma visibilidade gigantesca e milhões de jogadores ativos, e apesar de contar com mais de 100 campeões dos mais variados estilos, não existe uma conversa interna sobre sexo e gênero. A famosa streamer Queen B é transsexual, tivemos nos últimos meses a ascensão da Revy para o alto nível do competitivo, e o Kami, melhor jogador do país e um dos mais adorados pelo público, diz abertamente que é homossexual.

Em um ambiente tão tóxico quanto os de jogos online, é importante que as próprias desenvolvedoras deem o primeiro passo e ajudem na educação e na aceitação de suas comunidades. O Fatality tem um ótimo documentário sobre gênero no League, que pode muito bem ser usado para outros jogos. Já passou da hora de botar pra respeitar, independente de quem está por trás da tela.

About Luigi Olivieri

Membro fundador dessa página maravilhosa que chamamos de PlayerTwo.com.br. Mestre pokémon, fã de rogue-likes e tuiteiro de plantão.

  • Marcos Almeida

    Jogo CS:GO e me deparo frequentemente com sujeitos realmente mal-educados ( no mínimo). Aplaudo efusivamente a iniciativa da Ongame , apesar de achar algo pouco efetivo para diminuir o comportamento danoso de alguns jogadores.Respeito ao ser humano é a palavra chave em qualquer agrupamento de pessoas seja no virtual ou no real.Mas infelizmente existem pessoas que não irão mudar pois esse comportamento faz parte do que a pessoa é ou adquiriu ao longo dos anos.Portanto , conscientização no mundo virtual é algo inútil. É preciso punição. Pessoas com a mente de um “troll” não entenderão com conscientização , entenderão com punição, ao menos para os de maior idade , pois os menores ainda têm uma chance de mudar. Subtrair essas pessoas do meio de pessoas decentes é o que dá resultado .É um pensamento reacionário e retrógrado mas em minha opinião é o que funcionaria. Conscientização é “pérola aos porcos”. Enfim é uma tarefa complexa e árdua , mas será que as empresas estão realmente dispostas?